quinta-feira, 5 de maio de 2011

Consciência como único ‘capital’


Maharaj freqüentemente aparece com a declaração de que a consciência seria o único ‘capital’ com o qual nasce um ser consciente. Isto, ele diz, é apenas a situação aparente. A situação real, contudo, é que o que nasce é a consciência, a qual necessita de um organismo para manifestar-se, e que este organismo é o corpo físico.
O que dá sensibilidade – capacidade para sentir sensações, para responder a estímulos – ao ser consciente? O que distingue uma pessoa que está viva daquela que está morta? Seria, certamente, o sentido de ser, o conhecimento de estar presente, consciência, o espírito vitalizador que anima a estrutura física do corpo.

É a consciência, sem dúvida, que se manifesta em formas individuais e dá a elas uma existência aparente. No ser humano, através de tal manifestação, surge o conceito de um eu separado. Em cada indivíduo, o Absoluto se reflete como Consciência, e, assim, a Consciência pura torna-se Consciência de si mesma, ou consciência.
O universo objetivo é um fluxo contínuo, constantemente projetando e dissolvendo inumeráveis formas. Sempre que uma forma é criada e a vida é infundida (Prana), a consciência (Chetana) surgirá, simultânea e automaticamente, pela reflexão da Consciência Absoluta na matéria. A consciência – isto deve ser claramente entendido – é um reflexo do Absoluto na superfície da matéria, produzindo um sentido de dualidade. Como diferente disto, a Consciência, o estado Absoluto, é sem início e fim, sem a necessidade de qualquer apoio a não ser ela mesma. A Consciência torna-se consciência apenas quando tem um objeto sobre o qual refletir-se. Entre a pura Consciência e a Consciência refletida como consciência, diz Maharaj, há um intervalo que a mente não pode cruzar. O reflexo do sol na gota de orvalho não é o sol!

A conciência manifesta é limitada pelo tempo, visto que desaparece logo que a estrutura física que habita chega ao fim. Todavia, de acordo com Maharaj, ela é o único ‘capital’ com o qual nasce um ser sensível. E a consciência manifesta, sendo sua única conexão com o Absoluto, torna-se o único instrumento pelo qual o ser sensível poderá esperar obter uma liberação ilusória do ‘indivíduo’ que acredita ser. Sendo um com sua consciência e tratando-a como seu Atma, seu Deus, ele poderá conquistar o que considera inacessível.
Qual a real substância desta consciência desperta? Obviamente, deve ser a matéria física, pois, na ausência da forma física, não poderá sobreviver. A consciência manifesta pode existir apenas enquanto sua residência, o corpo, for mantida sadia e em condição habitável. Embora a consciência seja um reflexo do Absoluto, ela é limitada pelo tempo e pode ser sustentada apenas pelo alimento material, incluindo os cinco elementos, o que o corpo físico é. A consciência reside em um corpo saudável e o abandona quando ele decai e está pronto para morrer. O reflexo do sol pode ser visto apenas em uma gota de orvalho limpa, não em uma enlameada.

Maharaj diz freqüentemente que nós podemos observar a natureza e funcionamento da consciência em nossa rotina diária de sono, sonho e vigília. No sono profundo, a consciência se retira para um estado de repouso, por assim dizer. Quando a consciência está ausente, não há nenhum sentido de existência ou presença de si mesmo, e menos ainda a existência do mundo e seus habitantes, ou de alguma idéia de escravidão ou liberação. Isto é assim porque o próprio conceito de “eu” está ausente. No estado de sonho, uma partícula de consciência começa a agitar-se – não se está ainda plenamente acordado – e então, em uma fração de segundo, naquela partícula de consciência, é criado um mundo inteiro de montanhas e vales, rios e lagos, cidades e vilas, com construções e pessoas de várias idades, incluindo o próprio sonhador. E, o que é mais importante, o sonhador não tem qualquer controle sobre o que as figuras sonhadas estão fazendo! Em outras palavras, um novo mundo vivo é criado em uma fração de segundo, fabricado como resultado da memória e da imaginação meramente por um simples movimento naquela partícula de consciência. Imagine, portanto, diz Maharaj, o extraordinário poder desta consciência, uma mera partícula que pode conter e projetar um universo inteiro. Quando o sonhador acorda, o mundo de sonhos e as figuras sonhadas desaparecem.
O que acontece quando o sono profundo e também o estado de sonho terminam, e a consciência aparece novamente? O sentimento imediato, então, é o da existência e presença, não de um ‘eu’, mas presença como tal. Logo, contudo, a mente assume e cria o ‘eu’ – conceito e consciência do corpo.
Maharaj diz-nos repetidamente que estamos tão acostumados a pensar de nós mesmos como corpos tendo consciência, que achamos muito difícil aceitar ou mesmo entender a situação real. Na realidade, é a consciência que manifesta a si mesma em inumeráveis corpos. É, portanto, essencial perceber que nascimento e morte são apenas o início e o fim de uma corrente de movimentos na consciência, os quais são interpretados como eventos no espaço e no tempo. Se pudéssemos entender isto, deveríamos também compreender que somos puro ser-Consciência-felicidade em nosso estado original imaculado, e, quando em contato com a consciência, somos apenas a testemunha dos (e totalmente separados) vários movimentos na consciência. Este é um fato evidente porque, obviamente, nós não podemos ser o que percebemos; o percebedor deve ser diferente do que ele percebe.


"Sinais do Absoluto"
(Editora Advaita)

sábado, 19 de fevereiro de 2011

Patch Adams no Roda Viva



Patch Adams vira o Roda-Viva de cabeça pro ar.

domingo, 5 de dezembro de 2010

terça-feira, 30 de novembro de 2010

Arte com lixo




Um auto-retrato de um pedaço que havia esquecido. Às vezes nos condicionamos aos problemas e o subconsciente vêm nos dar uma bronca. Bom, pintei isso aí quando tava na pior e o engraçado é que só há uns dias atrás me dei conta de que essa figura me apareceu num sonho, lembro bem do rosto com o grande olho. 

PS: O lixo era o pedaço de madeira, que foi reciclado. Em breve virão mais tecos de arte.

domingo, 31 de outubro de 2010

Que venha a aurora



Ao fundo o lamento do velho piano que chora fora do tempo,
Eu aqui sentado, parado, esperando o nada que virá,
Sentindo o amanhecer da noite, que virá.
Todos temos um pouco de breu, do escuro,
Da falta que sobrou daquilo que não foi e nem nunca será.
O que é o tempo ? Estático sabemos que não é,
Então, de uma vez por todas, que venha a aurora,
Pois seu romper já me cansou e desgastou o agora,
Pendurado naquilo que foi, que é e que nunca será.

segunda-feira, 4 de outubro de 2010

Mataram o Cardoso


Só pra constar, o velho tá lá. Firme e forte. Ê telefone sem fio! Que viva ainda muitos e muitos anos, um viva pro Cardoso! 

Foto de André Dias, parceria.

terça-feira, 21 de setembro de 2010

Mercearia Paraopeba

Vídeo sensacional relatando a vida de uma mercearia em Itabirito, Minas Gerais e seus habitantes. A vida simples, o fiado, a troca e o caderno. Aquela coisa bonita do bairro, o cara que planta feijão troca por arroz, o cara que planta arroz troca por feijão.

Direção e roteiro de Rusty Marcellini.

terça-feira, 7 de setembro de 2010

Seu Antônio Cardoso



Nos seus sessenta e poucos anos - acredita-se - o velho vivia na Ilha de Superagui desde que nasceu. Seu Cardoso era um com sua terra, sua mata e seu mar. Os lagartos comiam em sua mão, os pássaros lhe cantavam as horas e lhe avisavam sobre as chuvas. O céu lhe fornecia a água, a terra e o mar, seu alimento. 
Naquele terreno arenoso, logo antes da restinga da praia, na simplicidade da harmonia que rege todas as coisas, cultivou abóboras, feijões, mandiocas, abacaxis e melancias, grandes melancias que eram escondidas para os momentos especiais.
Seu Cardoso compartilhava desde os peixes que matava, sua colheita até sua preciosa água. Dizia que todos os pobres deviam ir pra lá, que havia comida e água para todos.

Os olhos do velho pescador eram duas grandes jaboticabas negras, que em toda sua profundidade, refletiam todos os anos de solitude e solidão passados ali na terrinha. Seu corpo era forte e cultivava uma barba característica; longas costeletas que desciam pelo rosto e se encontravam num grande bigode branco. Era o marujo solitário da praia deserta.
Sabia ler e escrever, levávamos pilhas de livros para as férias e o velho sempre pegava um ao acaso e ficava absorto, sentado à sombra, com os olhos fixados nas plavras.

Lembro bem de quando tirou de seu casebre uma revista dos Testemunhas de Jeová, daquelas que vêm aos montes pelo correio, e compartilhou com felicidade aquelas imagens bonitas de sumérios e assírios no deserto, vestidos naqueles grandes panos brancos.

Certa vez, nos acalmou sobre uma tempestade enfurecida de raios que vinha em nossa direção na praia: Que nada, meu filho, isso é tudo obra de Deus.

Seu Cardoso passava o dia a contar histórias. Lendas do tempo dos caçadores, curiosidades e contos que seus avós contavam de séculos e séculos atrás. Dos barcos que atracaram pela praia deserta, das lendas e dos índios que habitavam a ilha.

Em suas canções nas noites de fogueira, cataia e violão, o velho falava da morte. Dizia que o dia em que o Cardoso morrer, aquela paraia deserta ia acabar. 
Seu Cardoso morreu. O turismo avassalador arrebata a ilha, os preços das coisas sobem, os problemas sociais são cada vez mais sérios, a chuva é cada vez mais escassa e os peixes e camarões são tirados a rodo do mar. 

O homem resistiu. Em pleno século XXI viveu e morreu na simplicidade dos indígenas, sem nunca ter ouvido falar da palavra sustentabilidade ou mesmo ecologia. Para o velho, aquele era o único jeito. Era simplesmente o que havia de ser e nada mais.

Que Deus o tenha! Que sua alma, agora livre da casca, possa brilhar ainda mais forte.
E que sua vida aqui na Terra sirva de exemplo a todos nós.